E esses lugares têm cheiros e formas rebeldes.
É nesses lugares que eu tateio no breu,
Em busca de objetos que eu possa desenvolver ternura.
Tais objetos fariam me sentir pertencente
De um mundo só meu.
Mas percebo que nada me pertence,
Nem o ar que invade o pulmão,
Nem a voz que me escapa da garganta,
Nem o chão que sustenta meus pés.
É como se tudo dançasse num frenesi colossal,
E eu posta no meio dessa dança
Como gota d’água que rebenta
Na queda de uma cachoeira.
Tateando essas cores sem nome é que desenvolvo minha dança.
E sei que tudo isso pode parecer devaneios sem sentido,
Mas a existência em si já me deixa perplexa,
A ciência para mim é misteriosa e deslumbrante,
E bebo este copo d’água assombrada com os mecanismos do meu próprio organismo.
É um lugar fantástico esse em que me encontro,
Com mil signos atravessando meus sonhos
E revelando quem de fato sou.
Caminho pela tangente,
E perpasso por esse não-lugar da arte,
Vivendo, sobrevivendo, respirando, trans-pirando.
O mundo continua sendo mundo,
E das nossas portas e janelas miramos para o mesmo sol.
Matamos nossos irmãos,
Degradamos nossa nação,
Aceitamos o inaceitável,
Normatizamos o intolerável,
Lutamos uns contra os outros
E nos odiamos mais do que nunca.
Tateamos o breu em busca de cores sem nome.
Talvez, no fundo, buscamos aquilo que já esquecemos,
Aquilo que faça brotar em nós
Uma gota oportuna de esperança.
(Abril de 2020)