O que sinto é inexato porque estou mergulhada em um oceano profundo e silencioso.
Meu corpo paira, flutua no espaço aquático de mil cores desconhecidas
E até se esquece do cansaço extremo.
As lembranças doem.
Ser eu mesma é uma estranheza
E ao mesmo tempo é de uma delícia misteriosa,
Como que infiltrando em uma caverna com uns cristais de outro mundo.
Meu corpo quer retornar.
Quer paz e suavidade,
Quer morar no aconchego seguro de umas flores que o guardam.
Mas é um tempo suspenso.
Percebi esse corpo com maior respeito,
Com maior veemência,
Pelos caminhos tortuosos que percorreu.
Fiz uma reverência às dores,
Disse umas frases inexatas,
Me encarei e senti meu próprio aroma
Sem a interferência de aromas externos.
Decifrei poucos enigmas,
Me infiltrei em perguntas que jamais terão resposta,
Descobri uma multiplicidade que vai além de todos os rótulos que me ofereceram.
Aprendi a negar um por um.
Um corpo suspenso num astro suspenso.
Feito de terra, oceano e silêncio.
(Maio 2020)