Corpo suspenso

domingo, 10 de maio de 2020 § 0

O que sinto é inexato porque estou mergulhada em um oceano profundo e silencioso. 
Meu corpo paira, flutua no espaço aquático de mil cores desconhecidas
E até se esquece do cansaço extremo. 
As lembranças doem. 
Ser eu mesma é uma estranheza 
E ao mesmo tempo é de uma delícia misteriosa, 
Como que infiltrando em uma caverna com uns cristais de outro mundo. 
Meu corpo quer retornar. 
Quer paz e suavidade, 
Quer morar no aconchego seguro de umas flores que o guardam.
Mas é um tempo suspenso.
Percebi esse corpo com maior respeito, 
Com maior veemência,
Pelos caminhos tortuosos que percorreu. 
Fiz uma reverência às dores, 
Disse umas frases inexatas, 
Me encarei e senti meu próprio aroma
Sem a interferência de aromas externos.
Decifrei poucos enigmas,
Me infiltrei em perguntas que jamais terão resposta, 
Descobri uma multiplicidade que vai além de todos os rótulos que me ofereceram.
Aprendi a negar um por um.


Um corpo suspenso num astro suspenso. 
Feito de terra, oceano e silêncio. 

(Maio 2020)

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